A Espécie Humana é Monotípica!

As primeiras tentativas de colocar ordem na humanidade, classificando-a em raças, datam do final do século xvii. Cem anos mais tarde, partindo de análises craniométricas, o médico alemão Johann Friedrich Blumenbach propôs uma divisão dos seres humanos nas raças caucasoide (branca), mongoloide (amarela), malaia (marrom), etiópica (negra) e americana (vermelha). 

Embora a classificação expresse uma atitude aristotélica, Blumenbach não empregou as regras classificatórias clássicas para compor o seu quadro racial. No lugar delas, implicitamente, utilizou a noção platônica de tipo ideal. A partir dela, modelos abstratos servirão como ícones das raças e todos os indivíduos reais serão agrupados em função de sua similitude aparente com aqueles ícones.
Mais um século se passou até que o tema da classificação racial derivasse para apreciações que conectavam Biologia e História. 

Nos tempos de Charles Darwin, tornara-se usual hierarquizar as raças humanas em função de suas capacidades intelectuais e explicar as realizações culturais e econômicas dos povos a partir de potencialidades raciais. Contudo, no século xix ninguém se entendia sobre a própria classificação racial. Georges Cuvier reduziu as raças a 3, James Prichard encontrou 7, Louis Agassiz aumentou-as para 12, Charles Pickering preferiu 11 e Thomas Huxley sugeriu 4. As coisas pioraram no século xx, com as novas descobertas dos exploradores e dos etnólogos. Joseph Deniker enumerou 29 raças em 1900 e Egon von Eickstedt listou 38 em 1937, quando outros propunham sistemas com mais de uma centena de raças. Bem antes desse colapso classificatório, Darwin registrara as dificuldades para se identificar nítidas diferenças entre as raças humanas, embora ele mesmo flertasse com a ideia da superioridade racial dos europeus.

A Biologia reconhece espécies monotípicas, nas quais todos os indivíduos fazem parte da mesma raça, e espécies politípicas, nas quais é possível identificar raças distintas. A espécie humana é monotípica: daí a impossibilidade, experimentada historicamente, de se alcançar uma classificação racial consensual. 

A genética provou que as variações no interior das populações humanas continentais são muito mais expressivas do que as diferenças entre populações. Também revelou que as alardeadas diferenças entre as "raças" humanas não passam de características físicas superficiais, controladas por uma fração insignificante da carga genética humana.

A cor da pele, a mais icônica das características "raciais", é uma mera adaptação evolutiva a diferentes níveis de radiação ultravioleta, expressa em menos de dez dos cerca de 25 mil genes do genoma humano.

"Out of Africa" é o nome do modelo hoje predominante na Paleoantropologia para explicar a origem dos humanos anatomicamente modernos. Segundo o modelo, todos os seres humanos atuais descendem em linha direta de uma mesma população africana, que se formou entre cem mil e duzentos mil anos atrás, já com características anatômicas modernas. Essa população de Homo sapiens expandiu-se rapidamente, colonizando a Ásia e a Europa e substituindo as subespécies humanas precedentes, oriundas de migrações mais antigas, que partiram da África há um milhão de anos.

A variabilidade genética é maior na África e decresce à medida que se aumenta a distância desse continente. Essa constatação parece dar suporte ao "out of Africa", pois é condizente com o cenário no qual pequenos grupos de migrantes separam um estoque genético de uma matriz maior. A chegada dos humanos modernos deu-se há cerca de sessenta mil anos na Ásia e quarenta mil anos na Europa – isto é, ontem, na escala temporal da evolução humana. E os grupos humanos nunca mais pararam de migrar. "No que diz respeito à biodiversidade humana em seu conjunto, a ausência de raças pode ser explicada precisamente à luz do fato de que somos uma espécie jovem e móvel, quando são requeridos tempo e isolamento reprodutivo para que se formem grupos geneticamente distintos."
Quando os contemporâneos de Darwin experimentavam incontáveis classificações das raças humanas, já existiam suficientes indícios científicos para pelo menos se colocar em dúvida a validade daquele empreendimento. Apesar disso, a ideia de que os seres humanos se dividiam em raças tinha uma hegemonia incontestável. Essa vontade de instaurar uma ordem natural na humanidade exige uma explicação externa às ciências da natureza.

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