A Imagem do Negro Brasileiro que Queremos Ver!


















Esta oposição da criança de pele escura, descabelada, mal-ajambrada, pobre e suja versus uma criança negra vestida, limpinha e arrumadinha é bastante estereotipada, ela nos remete diretamente às propagandas dos missionários cristãos em África e Ásia de fins do século XVIII e do XIX, que mostravam, por exemplo, uma mulher de pele escura como as das etnias de Nova Guiné seminua toda descabelada e depois vestida até o pescoço, penteada, 'cristianizada'.
As oposições tanto no imperialismo do XIX como no capitalismo defendido por Veja do século XXI têm a mesma função e ambas vendem dois estereótipos o de antes e o do depois. Estereótipos reforçados pela criança branca eleita por Veja pra representar o seu discurso de um 'novo Brasil que precisa ser construído'.
Aos olhos atentos, Veja faz uma releitura de Rudyard Kipling, reassumindo um 'novo fardo do homem branco'. Assim como o fardo que Kipling defendia em seu poema, Veja se considera portadora de uma 'verdade' a ser revelada para nós.

Veja, assim como os imperialistas do XIX, esquece-se que as populações negras de nosso país vêm se organizando e lutando não apenas para garantir seus direitos em uma sociedade de racismo velado e de extrema desigualdade social e étnico-racial, mas também contra estereótipos como os propagados na campanha de Veja.
Há muito os movimentos negros são protagonistas de propostas e mudanças efetivas neste país, mudanças essas as quais Veja sempre fez oposição, como ao projeto de Estatuto de igualdade racial, à política de cotas e uma série de outras ações afirmativas.

É bom que Veja saiba que, ao menos entre a população negra desse país, a cara do novo Brasil que queremos não é a vendida e defendida por Veja. Assim como os inúmeros povos africanos e asiáticos negaram a ideologia racista do imperialismo, há muito que os negros brasileiros vêm negando a tutela branca para falar por eles.
Por outro lado, essa nova campanha parece revelar que o Brasil propagado por Veja está tendo baixas. Quando se investe tanto tempo em uma propaganda televisiva em horário nobre é porque há necessidade. Pelo visto estão perdendo leitores e as estratégias de mandar, durante um mês, exemplares de Veja às residências para cooptar possíveis assinantes, parece que não está funcionando. Aqui em casa quando eles chegam não me dou ao trabalho sequer de tirar do saquinho, vão direto para o lixo

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