Pierre Verger : A Diáspora Africana

Pierre Edouard Leopold Verger (Paris, 4 de novembro de 1902 —
Salvador, 11 de fevereiro de 1996) foi um fotógrafo e etnólogo
autodidata franco-brasileiro.
Assumiu o nome religioso Fatumbi.
Era também babalawo (sacerdote Yoruba)
que dedicou a maior parte
de sua vida ao estudo da diáspora africana -




"o comércio 
de escravos, 
as religiões 
afro-derivadas 
do novo mundo, 
e os fluxos culturais 
e econômicos resultando 
para a África"

Após a idade de 30 anos, depois de perder a família,
Pierre Verger levou a carreira de fotógrafo jornalístico.
A fotografia em preto e branco era sua especialidade. Usava uma máquina Rolleiflex que hoje se encontra na Fundação Pierre Verger.
Em suas constantes idas e vindas entre a África Ocidental e a Bahia, Verger não deixava de se encantar com as semelhanças entre os povos dos dois lados do Atlântico. Na aparência, jeito de falar e costumes, ele via a comprovação de uma história entrelaçada. O tema o apaixonou tanto, que Verger chegou a exercer um importante papel na renovação desses laços. Aqui e lá, organizou museus, ciceroneou pessoas, transportou mensagens, fez pesquisas. E, para compreender os motivos dessas semelhanças, estudou a fundo o tráfico de escravos e o retorno de muitos deles à África, após a abolição, gerando assim uma de suas principais obras: Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre o Golfo do Benin e a Baía de Todos os Santos dos Séculos XVII a XIX.

A pesquisa começou em 1949, em Ouidah, quando Verger teve acesso a um importante testemunho sobre o tráfico clandestino de escravos para a Bahia: as cartas comerciais de José Francisco do Santos, escritas no século XIX. Aos poucos, ele foi descobrindo que, nos últimos anos do tráfico, os escravizados eram quase exclusivamente os iorubás, que o tabaco era a moeda de troca e a intensidade desse comércio abominável: "Os agentes da escravidão na Bahia tiveram relações estreitas com essa parte da África. Houve anos em que se registraram cerca de cem navios indo e voltando da Baía de Todos os Santos para o Porto de Ouidah".

Foram cerca de vinte anos de pesquisas até o texto ficar pronto. Em 1966, Fluxo e Refluxo foi apresentado na Sorbonne, em Paris, que atribuiu a Verger - um autodidata que foi expulso duas vezes das salas de aula por indisciplina e parou de freqüentar a escola aos 17 anos - o título de Doutor em Estudos Africanos. A tese transformou-se em livro dois anos depois, em 1968, quando saiu a versão francesa. Depois de oito anos, em 1976, foi publicada a versão em inglês. O público brasileiro só pôde conhecer o livro em 1987, mais de vinte anos depois de pronto, quando a Editora Corrupio publicou a versão em português.

Fluxo e Refluxo se tornou um marco. Nas suas 718 páginas, exibe-se um estudo criterioso, que esclarece aspectos até então obscuros sobre a escravidão e suas conseqüências econômicas, sociais e políticas. Verger não economizou esforços: descreveu as relações comerciais, tratou das revoltas e rebeliões de escravos, das formas de emancipação, das condições de vida, da legislação, do retorno à África, da vida dos descendentes de brasileiros e outros pontos. Transcrevendo literalmente muitos dos documentos consultados em arquivos em Londres, Lisboa, Paris, Haia, Bahia, Rio de Janeiro e Lagos, produziu o seu livro mais historiográfico.

"Muitos dos pretos, ao voltarem libertos para a África com costumes brasileiros, fizeram lá uma espécie de Brasil
, assim como se formou aqui uma espécie de África", dizia Verger; que considerava importante o reatamento dos laços entre esses povos irmãos. Com Fluxo e Refluxo, vários artigos e outras iniciativas, ele tentou colaborar para essa aproximação. E, de fato, a sua obra promoveu e continuará promovendo muitos avanços nesse campo, pois ela continua sendo uma das mais importantes fontes de informação para brasileiros e africanos, que desejarem conhecer melhor a sua própria história.
http://www.pierreverger.org

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