A Expressão da Estética Negra na Sociedade Brasileira

On the Road - XX

Pertencer ou não a um segmento étnico/racial faz muita diferença nas relações estabelecidas entre os sujeitos da escola, nos momentos de avaliação,nas expectativas construídas em torno do desempenho escolar e na maneira como as diferenças são tratadas. Embora atualmente os currículos oficiais aos poucos incorporem leituras críticas sobre a situação do negro e alguns docentes se empenhem no trabalho com a questão racial no ambiente escolar, o cabelo e os demais sinais diacríticos ainda são usados como critério para  discriminar negros, brancos e mestiços. A questão da expressão estética negra ainda não é considerada um tema a ser discutido pela pedagogia brasileira.
     Os sinais diacríticos operam como demarcadores da diferença. Quanto mais aumentam as vivências da criança negra fora do universo familiar,quanto mais essa criança ou adolescente se insere em círculos sociais mais amplos como é o caso da escola, mais se manifesta a tensão vivida pelos negros na relação estabelecida entre a esfera privada (vida familiar) e pública (relações sociais mais amplas).
     São nesses espaços que as oportunidades de comparação, a presença de outros padrões estéticos, estilos de vida e práticas culturais ganham destaque no cotidiano da criança e do/a adolescente negros, muitas vezes de maneira contrária àquela aprendida na família. Em alguns casos, é o cuidado da mãe, a maneira como a criança é vista no meio familiar que lhe possibilitam a construção de uma auto-representação positiva sobre o ser negro/a e a elaboração de alternativas particulares para lidar com o cabelo crespo. Nesse caso, podemos inferir que saber lidar, manusear e tratar do cabelo style="background-color: white; color: black;">crespo está intimamente associado com estratégias individuais de construção da identidade negra

    On the Road - XXVIIIF.“Pra minha felicidade, a minha relação pessoal,mulher e o meu cabelo crespo foi ótima pelo fato de ter tido a minha mãe, que é uma cabeleireira conceituada aí já no mercado afro, que cuidou sempre do meu cabelo, eu nunca sofri. E ela tentou fazer com que eu nunca passasse em situações que ela passou com o cabelo crespo, com a dificuldade que ela teve com o cabelo dela. Então, assim, eu nunca tive problemas com alisamento, a vida inteira alisei o cabelo. Nunca tive aqueles problemas famosos com queimaduras e tudo mais. Sempre tive o meu cabelo saudável. (F., 26 anos, cabeleireira) 
     A reação de cada pessoa negra diante do preconceito é muito particular. Essa particularidade está intimamente ligada à construção da identidade negra e às possibilidades de socialização e de informação. Como me disse uma depoente, muitas vezes as pessoas são preconceituosas por causa da desinformação. Elas precisam ser reeducadas.
    “Tenho amadurecimento pra isso. Então essa questão da história do cabelo é muito em função disso. Minha irmã, ela trabalhava na Usiminas, então ela tinha mais contatos... não muito com negros, mas com pessoas que tinham outra visão, que davam outro tipo de incentivo e eu custei a cair, vamos dizer assim, não vou chamar de mundo real não, mas a encontrar essa história do negro pra me identificar legal. Acho que por isso que foi esse processo... lento! Não sei... foi esse processo passo a passo. E eu estou aqui: cabelo maravilhoso! Que eu amo... e eu ainda achei interessante que... quando eu solto ele assim todo mundo fica escandalizado.(risos)   Hummingbird Spreads Its Wings - XXI
    Aí um dia eu fui na padaria e a menina olhou pro meu cabelo: '- Por que cê num corta seu cabelo?' (risos) Eu achei tão fantástico: 'Por que cê num corta seu cabelo?' Eu falei assim: 'Porque eu gosto dele assim.' - de uma forma muito tranqüila... E eu achei legal que ela virou e falou assim: '- Deve dar muito trabalho!' Na visão dela, para eu colocar o meu coque assim, simplesmente amarrar... Aí, ninguém entende esse coque no meu cabelo e todo mundo fica... principalmente os brancos que não sabem como que é o simples amarrado. Todo mundo quer pegar e ver. '- Como é que seu cabelo fica assim, pra cima?' Entendeu? Então o porquê... porque nós sabemos como que ele fica pra cima, mas as pessoas que olham... Gente!... são inúmeras as pessoas... Às vezes a cabeleireira B. até me chama a atenção por causa disso, que as pessoas querem pegar, ver. É diferente.'- Como é que cê faz pro seu cabelo ficar armado dessa forma?' Então eu explico que o meu cabelo é crespo, que ele não é liso, por isso que ele fica pra cima, se eu alisasse com certeza ele cairia. E eu amarro... Aí que as pessoas: '- Ah, então ele tá amarrado, né?' Na cabeça das pessoas, eu acho que elas não conseguem ver que eu jogo esse cabelo todo pra cima e amarro. E aí eu achei interessante... e aí ela comentou: '- Ah não, isso assim dá muito trabalho.' Aí eu expliquei pra ela que não dava trabalho... aí eu mostrei pra ela: '- Olha, tá vendo, ele tá amarrado. É só eu pentear ...' Ainda olhei pra ela e falei assim: '- Tem como pentear!!! Eu penteio meu cabelo... e amarro'. E ao invés de amarrar ele pra baixo como as pessoas têm o costume de amarrar, amarro ele pra cima. Tá diferente, é só você perguntar! (gargalhadas) Mas é claro, fico bem tranqüila  porque eu acho legal as pessoas terem essa liberdade de questionar. Porque se de repente entro numa de... porque meu cabelo é assim, eu quero é assim, pronto e acabou e você não tem nada com isso... A pessoa nem sabe como é o processo de um cabelo... do negro... E aí a gente vai informando de uma forma tranqüila... porque é uma informação. (D., 38 anos, contabilista) (Grifo nosso) 

     Embora existam aspectos comuns que remetem à construção da identidade negra no Brasil, cada vez mais compreendo que para discuti-la precisamos sempre considerar como os sujeitos a constroem não somente no nível coletivo, mas também individual. O mais difícil é, após conhecer essas estratégias individuais, interpretá-las, não julgá-las e nem classificá-las como mais ou menos politizadas, mais ou menos corretas. Quem sabe, assim, compreenderemos como o negro constrói a sua identidade nos seus próprios termos.
     Há, então, um campo mais íntimo que se refere à esfera da subjetividade, que mesmo a intervenção familiar e um debate crítico produzido no espaço da militância ou da escola conseguem alcançá-lo na sua totalidade. Isso não significa ignorar o peso da história, da sociedade e da cultura, mas destacar que a subjetividade também tem a sua importância no processo do tornar-se negro. A relação do negro com o cabelo nos aproxima dessa esfera mais íntima.
     É nesse sentido que o olhar sobre a adolescência dos sujeitos negros faz-se importante. A adolescência é um dos momentos fortes na construção da subjetividade negra. Alguns/mas depoentes ao falarem sobre a sua relação com o cabelo, relembraram as experiências vividas nesse ciclo da vida e falaram da sensação de “desencontro”, de mal-estar e de desconforto em relação ao seu tipo físico, seu cabelo, sua pele e sua cor, vivida na adolescência. Dependendo do sujeito e da sua forma de lidar com essa experiência temos, hoje, um adulto que acumula certos traumas raciais ou que lida com desenvoltura diante dos seus dilemas étnicos e raciais.
Happy Haircut(ters) - II     Para o/a adolescente negro/a a insatisfação com a imagem, com o padrão estético com a textura do cabelo é mais do que uma experiência comum dos que vivem esse ciclo da vida. Essas experiências são acrescidas do aspecto racial, o qual tem na cor da pele e no cabelo os seus principais representantes. Tais sinais diacríticos assumem um lugar diferente e de destaque no processo identitário de negros e brancos brasileiros. A rejeição do cabelo, muitas vezes, leva a uma sensação de inferioridade e de baixa auto-estima contra a qual faz-se necessária a construção de outras estratégias, diferentes daquelas usadas durante a infância e aprendidas em família. Muitas vezes, essas experiências acontecem ao longo da trajetória escolar. A escola pode atuar tanto na reprodução de estereótipos sobre o negro, o corpo e o cabelo quanto na superação dos mesmos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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