A Relação com o Cabelo Crespo na Adolescência e Vida Adulta!

A adolescência é um dos momentos fortes na construção da subjetividade negra. Alguns/mas deprimidos ao falarem sobre a sua relação com o cabelo, relembraram as experiências vividas nesse ciclo da vida e falaram da sensação de “desencontro”, de mal-estar  em relação ao seu tipo físico, seu cabelo, sua pele e sua cor, vivida na adolescência. Dependendo do sujeito e da sua forma de lidar com essa experiência temos, hoje, um adulto que acumula certos traumas raciais ou que lida com desenvoltura diante dos seus dilemas étnicos e raciais.
     Para o/a adolescente negro/a a insatisfação com a imagem, com o padrão estético com a textura do cabelo é mais do que uma experiência comum dos que vivem esse ciclo da vida. Essas experiências são acrescidas do aspecto racial, o qual tem na cor da pele e no cabelo os seus principais representantes. Tais sinais diacríticos assumem um lugar diferente e de destaque no processo identitário de negros e brancos brasileiros. A rejeição do cabelo, muitas vezes, leva a uma sensação de inferioridade e de baixa auto-estima contra a qual faz-se necessária a construção de outras estratégias, diferentes daquelas usadas durante a infância e aprendidas em família. Muitas vezes, essas experiências acontecem ao longo da trajetória escolar. A escola pode atuar tanto na reprodução de estereótipos sobre o negro, o corpo e o cabelo quanto na superação dos mesmos.
    F: E eu cresci assim, é... constrangida porque na escola eu fui barrada também... Teve festas que eu quis participar na escola e diziam que não, que não podia não. Que só iam as meninas brancas, as meninas bonitas...Eu custei, eu sofri muito, muito, muito a entender que negro era gente também... Eu vim descobrir que negro tinha história quando fui pro colégio, porque até então, pra mim negro era um bicho, era um... uma ... um defeito, sabe? E morria de vontade de ser branca, por causa do cabelo, pra freqüentar assim essas coisas... pra aproveitar.
    
O branco tem o cabelo liso, né. Então o negro tem o cabelo crespo, às vezes chega a ser carapinha mesmo. Mas vem daí a influência do branco sobre o negro, eu acho que quando você não tem noção do que é ser negro, você se cobra muito aquele cabelo maravilhoso, né, aquela coisa bonita de passar a mão, de cair, de "Ai, o meu cabelo é lindo, maravilhoso!” Quando a gente tem uma noção do que é ser realmente negro, aí a gente se aceita com o cabelo que a gente tem. Eu, por exemplo, eu daria tudo pra ter o meu cabelo anelado, sabe, eu daria tudo para ter o meu cabelo anelado. Mas não consigo tê-lo crespo. Num sei te explicar porque mas não consigo... Talvez seja, nem seja por mim mesma, seja pela cobrança... cê chega num lugar pra trabalhar se você... eles olham. Você chega num lugar pra se divertir... às vezes cê tá passando na rua, aí um grita de lá: “vamos pentear o cabelo”? Ou então cantam aquela musiquinha assim, "Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia ..” Quer dizer, é muita coisinha, é, é.... muita ironia mesmo, às vezes, das pessoas... É muito complicado, muito complexo, né? (F., 36 anos, professora)
    
Na Vida Adulta:
S: É  aí que você já assumiu uma identidade diferente, você já entra no caso da aparência, quer competir com as pessoas, no mesmo ponto de vista, então se você vai a uma festa ou mesmo no dia-a-dia, você que ter uma aparência melhor, você vai se cuidar, na época eu já deixei os meus cachos, já parti pra um alisamento, já parti pra um bobe no cabelo e aquilo se identificava comigo, pra mim assumiu uma aparência de competição com as outras pessoas, se fulano fazia assim eu não queria fazer igual, mas eu queria ficar de maneira comparativa: ela na dela e eu na minha. Como minhas colegas umas usavam seu rabo de cavalo, seus penteados da época pigmaleão, touca holandesa, essas coisas, então eu procurava ir atrás disso dentro daquilo que meu cabelo permitia. (S., 60 anos, aposentada)   

J: “Aí depois que eu comecei a ficar mocinha, esse período é que foi difícil. Que aí é que eu tinha que trabalhar, não tinha ninguém pra arrumar o meu cabelo mais. Tinha uma época que eu não queria nem saber, nem cuidar de cabelo. Ele ficava todo espetadinho pra cima. Era muito cabelo, era difícil de arrumar. Então eu amarrava ele pra cima assim, ficava aquela bucha, sabe? Eu não ligava, não estava nem aí também não, era meio desligada mesmo. Tinha vez também que... igual na época dos doze, treze, eu gostava muito de brincar de casinha, já tinha esse trem de Salão também.  

Eu colocava aqueles... pegava blusas e colocava assim na cabeça e ficava na frente do espelho e falava que era meu cabelo. Me lembro que pegava as toalhas da minha tia e colocava na cabeça.” (Risos) J., 23 anos, cabeleireira) 

“Na adolescência era uma tragédia! 
Porque a testa era marcada de dentinho de pente, de ferro quente. Aquele cabelo é... aquele cheiro de gordura. Porque hoje em dia, tem as coisas assim, aperfeiçoou e tem o creme certo pra passar. Antigamente não, a gente assentava no fogão e vinha aquela coisa na cabeça cheia de fumaça, a gente queimava tudo. É babyliss que eu usava também. Era um trauma, janela do ônibus, jamais pedia para abrir. Nossa, pelo amor... aquele calor com as janelas... porque meu cabelo vai espetar. Quando eu ia na danceteria, aquelas colegas tudo com cabelo lindo. Ia no banheiro, aquele calor, molhava o cabelo. Eu jamais podia... uma que não precisava, que já estava todo escorrido de... de... aquela fumaça que tinha na danceteria, já caía tudo, então não tinha como mesmo... É... clube, não podia jamais, porque... nossa, como é que ia molhar o Nossa! Não gosto, tenho pavor de água, não sei nadar... Porque, é lógico, como que ia molhar o não tinha comoEu tinha mais ou menos uns 17 anos, eu conheci um rapaz. Eu achei ele uma gracinha e tal. Nessa época eu já usava... aí já passou o tempo do cabelo alisado, usava trancinha africana. E eu colocava um aplique. E estava assim o nosso namoro, tinha uns dois meses... ele adorava minha trança, aí teve um dia, que ele falou assim: - 'Nossa! É tão lindo o seu cabelo, solta o seu cabelo'... (risos) Eu falava: - 'Pra que você quer que eu solto o meu cabelo?' Ele falava assim: - 'Não, solta o seu cabelo.' Ah! Ele nem imaginava que era aplique, porque era tão bem feito. Cabelo idêntico ao meu e tal. Eu falei: - 'Não, não vou soltar meu cabelo não.' Só que a gente ia num pagode e tinha umas meninas que usavam trancinha. Aí não sei o que aconteceu, alguém falou com ele que era aplique. Que deve ter falado: - 'Ah! Aquele cabelo dela é falso!' Um dia ele falou assim: - 'Eu sei porque...'. Ele falou: - 'Solta o seu cabelo... Eu sei porque você nunca vai soltar o seu cabelo, não é?' Eu disse: - 'Ih! Alexandre, pelo amor de Deus, vão mudar de assunto?' Ele disse assim: - 'Ah! Eu sei porque você não vai soltar o seu cabelo, sua amiga me falou que você usa peruca, que você é careca não é?' Nossa! Foi uma tragédia! Eu tomei pavor mortal, tomei um ódio mortal dele. Ele falou assim, passando a mão assim no meu rosto. - 'Eu sei, tudo bem. É porque você não tem cabelo, você é careca, você usa peruca. (risos)” (NU, 26 anos, cabeleireira)



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
ARROYO, Miguel G. Ofício de mestre. Petrópolis: Vozes, 2000.
BRUNER, Jerome. A cultura da educação. Porto Alegre: Artmed, 2001. GONÇALVES, Luiz Alberto Oliveira. O silêncio: um ritual pedagógico a favor da        discriminação racial. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da UFMG, 1985.       (Dissertação, mestrado em Educação) KOBENA, Mercer. Black Hair: style politics. In: Welcome  to the jungle:  new positions in Black Cultural Studies, New York: Routledge,1994, 97-128. MARTINS, José de Souza. A dialética do corpo no imaginário popular. In: Sexta-feira,        antropologia, artes, humanidades, São Paulo, Pletora, n.04, 1999, p.46-54. MAUSS, Marcel. As técnicas corporais. In: Sociologia e Antropologia, São Paulo:         EPU,1974, p.209-233. MUNANGA, Kabengele. Arte afro-brasileira” o que é, afinal? In: Associação 500 anos Brasil artes visuais. Mostra do redescobrimento. Arte afro-brasileira. São Paulo:        Fundação Bienal de São Paulo, 2000, p.98-111. QUEIROZ, Renato da Silva e OTTA, Emma. A beleza em foco: condicionantes culturais e psicológicos na definição da estética corporal. In: QUEIROZ,  Renato da Silva (org.) O  corpo do brasileiro; estudos de estética e beleza. São Paulo:          SENAC, 2000, p.13-66. QUEIROZ,  Renato da Silva (org.) O  corpo do brasileiro; estudos de estética e beleza.          São Paulo: SENAC, 2000. RODRIGUES, José Carlos. O tabu do corpo. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986.

1 Sua Vez...:

Nossa eu tbam colocava toalhas na kbeça rsrs nem sei mas acho que podemos generalizar bastante as situações apresentadas.

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