20 anos da PORTFOLIUM, o Calendário Revolta dos Búzios

A PORTFOLIUM Laboratório de Imagens está completando 20 anos. Tempo de muitas realizações, frustrações e, sobretudo, resistência. Fundada em janeiro de 1992, por mim e pelo fotógrafo Josias Santos, amigo de todas as horas, desde o início trabalhamos com a linguagem visual (cinema, fotografia etc.), buscando contribuir com a valorização da memória dos movimentos sociais, na Bahia e no Brasil. Certamente que não tem sido fácil manter ativa e digna uma pequena empresa ousada, cheia de sonhos e rebeldias, nestes tempos de domínio quase absoluto do “mercado” e do “sistema”, novos eufemismos que denominam o velho e carcomido capitalismo.

A Revolta dos Búzios é uma história que precisa e merece ser conhecida mais amplamente, saindo das sombras das efemérides oficiais. No seu estudo, tomamos como principal fonte de pesquisa os “Autos da Devassa”, documento de inegável valor histórico, com mais de 2.000 páginas escritas no “calor da hora”, contendo o desdobramento minucioso da grande investigação que o governou mandou proceder, após o surgimento dos “papéis revolucionários” em 12 de agosto de 1798. Estes "Autos" cobrem um período de agosto/1798 a novembro/1799 e são transcrições de dezenas de sessões da Devassa, incluindo a íntegra dos depoimentos de mais de 70 pessoas que foram interrogadas. Trata-se de um texto viciado e absolutamente parcial, escrito por homens que integravam a estrutura do poder colonial, comprometidos a priori com a condenação dos conspiradores, acusados de crime de lesa-majestade. Contudo, dele se pode obter informações valiosas, se lhes for dedicado uma "leitura a contrapelo", como diria Walter Benjamin.

Algo novo na nossa história, diferente de outros movimentos separatistas da América Portuguesa, a conspiração baiana de 1798 defendia as bandeiras da Independência, que só viria em 1822, da República, proclamada apenas em 1889, e avançava na defesa do fim da escravidão, conquistada somente no ano de 1888. Isso nos leva a crer que, no Brasil atual, onde a população afrodescendente é majoritária (50,74%, IBGE 2010), não é mais possível continuar desconhecendo movimentos sociais protagonizados pelo povo negro, que teve grande importância na formação histórica e política do país. É neste sentido que a realização deste projeto contribui para preencher uma lacuna na história da Bahia e do Brasil, que necessitam de iniciativas como esta, fundamentais para a afirmação e consolidação da autoestima e identidade étnica de seu povo.

Sem pretensão de análise, os textos do Calendário têm uma narração descritiva dos acontecimentos, um esboço da tentativa de “esquartejamento” dos “Autos da Devassa”, mais do que nunca necessário, para que a gente não fique falando do que não conhece, contrapondo o ocultamento indesejado, a desinformação generalizada, que, a despeito das boas intenções, produz danos históricos também graves.
Faço um agradecimento especial à Secretaria da Educação do Estado da Bahia, que adquiriu uma cota do calendário para distribuir nas escolas públicas e, assim, possibilitou que o projeto fosse realizado. Às outras instituições (púbicas e privadas) que não alcançaram esse entendimento..., não alcançaram. Mais importante que isso foi o nosso desejo de contribuir com o desvelar de uma história importante para a Bahia e o Brasil.
Agradeço também as valiosas leituras críticas de Luciene Maria, Léa Costa Santana Dias, Graça Leal e Sergio Guerra Filho, que contribuíram muito para reduzir as imperfeições do trabalho. E aos sempre presentes Sergio Guerra, Josias Santos e Raimundo Laranjeira, sem eles, eu não o faria.
Por fim, dedico também este Calendário a minha linda flor Mariana Ayana, de seis anos, idade/tempo que dediquei a conhecer a apaixonante Revolta dos Búzios.
por: Antonio Olavo - Cineasta

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