“Histórias Cruzadas” comove fácil com Drama Racial



Ao espectador que for assistir a “Histórias cruzadas”, filme de Tate Taylor que estreia amanhã no Rio, um conselho: pondere sobre sua percepção acerca de qual grupo racial é o protagonista da trama. Não são muitas opções, são apenas duas, mas cada uma delas é responsável por um ponto de vista completamente diferente sobre o tema do filme. “Histórias cruzadas” trata de racismo. As alternativas do protagonismo, portanto, são óbvias. Mas sua escolha, nem tanto. 


É que muitas camadas separam as empregadas negras das jovens patroas brancas do filme. A camada social relega a um grupo ter que juntar cada centavo possível para conseguir mandar um filho para a faculdade; enquanto o outro gasta dinheiro com festas, roupas ou encontros beneficentes. A camada política permite que umas se encontrem para discutir questões pertinentes da comunidade; enquanto outras ficam impossibilitadas de se manifestar por medo ou até por limites da legislação. E a camada racial dá à patroa branca todos os direitos; mas pode impedir que a empregada negra use um mero banheiro. 

Quem são as protagonistas, então? As reprimidas ou as repressoras? Com quem nós nos identificamos? 


Viola Davis em "Histórias Cruzadas": segregação racial nos EUA da década de 1960 - Divulgação
Viola Davis em "Histórias Cruzadas": segregação racial nos EUA da década de 1960 - Divulgação

Baseado no livro “A resposta”, de Kathryn Stockett (lançado no Brasil pela editora Bertrand), “Histórias cruzadas” se passa no início dos anos 1960, numa cidade do sul dos EUA, época de conflitos raciais — foi em 1963 que Martin Luther King, por exemplo, proferiu o famoso discurso do “Eu tenho um sonho”. As patroas brancas são um grupo de patricinhas (sim, existiam patricinhas nos anos 1960) que, em sua maioria, trata as empregadas negras como se a escravidão não tivesse acabado. Há duas exceções: a aspirante a escritora Eugenia (Emma Stone, um atriz esforçada mas que acaba ofuscada pelo resto do elenco) e a maluquete emergente Celia (Jessica Chastain, numa atuação brilhante, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante). São as duas que buscam o equilíbrio entre os dois grupos. 

Já as domésticas negras são lideradas por Aibileen (Viola Davis, indicada e uma das favoritas ao Oscar com todo merecimento) e Minny (Octavia Spencer, também indicada ao Oscar, como coadjuvante, e também favorita com justiça), duas mulheres pobres que acabam concordando em contar suas histórias para um livro que Eugenia está escrevendo. 

Tate Taylor conduz seu filme alternando entre o conto de fadas das mulheres que sonham com mudanças e a realidade social de um país dividido quanto às questões raciais. Às vezes, ele exagera, sim, para um lado (o sentimentalismo do conto de fadas) ou para o outro (a dureza da realidade). Mas “Histórias cruzadas” permite que o espectador pondere, questione e se emocione, tudo no mesmo pacote. 

E isso vale para qualquer ponto de vista que o espectador siga. A consciência da opção escolhida serve somente para nos dar um pouquinho de autoconhecimento, outro dos méritos de “Histórias cruzadas”, ele próprio indicado ao Oscar de melhor filme.
 


Por:André miranda

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