Mulher Negra Hoje

Adriana Barbosa: “Eu respiro cultura negra”

Adriana Barbosa é negra. Ela luta todos os dias para que todos reconheçam o valor da cultura afrobrasileira. Adriana tem 33 anos, e é também paulistana, filha, irmã e empreendedora. E ela faz de sua vida um ato político, como todo cidadão deveria fazer.
Na semana do empreendedorismo e da consciência negra, conversamos com Adriana sobre cultura negra, Feira Preta (maior evento de cultura negra da América Latina), família e a sua infância.
O que é consciência negra pra você?
Consciência negra é um ato político. É muito mais do que falar quem é negro e quem não é. Às vezes, a discussão fica muito pautada apenas numa questão da pele. A consciência negra é refletir sobre o que a cultura negra trouxe para a gente – comportamento, estética, culinária, religião, música. É assumir essa identidade, independente de etnia, se você é branco ou negro. É valorizar o que foi deixado e que fez parte do nosso processo de colonização.

Quando você começou a ter uma ação política ligada a consciência negra?
Sempre tive uma posição política, mesmo antes de atuar fortemente com este segmento. Antes de fazer produção com a Feira Preta eu trabalhava na área de comunicação. Sempre tive apreço, de um modo geral, pela cultura negra. A minha militância começou a consumir elementos culturais com esse viés étnico. Quando comecei a fazer a Feira Preta isso ficou mais acentuado. Não só por ser negra, mas por acreditar que a população negra tem condição de ter uma outra imagem. Não só o estereótipo do negro coitado, que foi escravizado, mas principalmente as coisas que os antepassados deixaram de legado e as produções que têm acontecido hoje.
Imagem: Acervo/Feira Preta
Adriana, no Pílulas de Cultura Feira Preta, na Casa das Caldeiras.
A música negra sempre esteve muito forte em minha vida. A família do meu pai é de sambistas. Sempre ouvi muito soul, música afro-americana e também música brasileira, de Bezerra da Silva à Pixinguinha. Isso estava sempre valorizado, cantado e falado, e sempre vi isso com muita beleza.
Como foi a sua infância?
Sempre morei com minha avó. Meus pais eram separados. A característica da minha família é matriarcal. Liderada por mulheres. Fui criada pela minha bisavó, minha avó e minha mãe. Só presença feminina. E a imagem que me passa da infância é de muita luta dessas mulheres para sobreviver e educar os filhos. As lembranças que tenho são sempre de muito trabalho e empreendedorismo. Minha bisavó era uma verdadeira empreendedora. Ao menor sinal de dificuldade ela sempre inventava uma coisa nova. Começava a vender bolo, salgados, ou marmitex. E minha avó, Naidê, tem 80 anos e trabalha como empregada doméstica para a mesma família há mais de 50 anos. Pelo reconhecimento do seu trabalho, o patrão deu a ela uma casa . Mas não foi na periferia. A gente era pobre, mas não morava na periferia. Sempre morei no centro, ali na Praça da Árvore, região da Saúde, dita de classe média.
Sempre frequentei escolas públicas, mas com pouca presença de criança negra. Eu fazia parte dessa minoria. Tive que lidar com essa questão da diferença, do olhar da criança branca para a criança negra, muito cedo. Tenho imagens muito boas da infância, e de sempre estar atenta a questões da diferença cultural. E uma forma de lidar com isso era sobressair. Eu poderia ter o mesmo nível de conhecimento que uma criança branca, mas tinha que estar sempre buscando saber um pouco mais. Fiz parte dos jornais das escolas, dos grêmios. Eu tava sempre no meio da turma, do movimento político.
Qual é a sua posição dentro da Feira Preta? Como ela surgiu?
Comecei há nove anos e hoje sou coordenadora. Já passaram outras pessoas e eu permaneci. O início foi em 2002, na Praça Benedito Calixto. Eu tinha acabado de sair do meu trabalho e estava sem perspectiva de arrumar emprego. Eu tinha muitas roupas e acessórios e comecei a vendê-las. E assim, montei o Brechó da Troca. Uma amiga minha que também estava desempregada, começou a vender pastéis. Começamos a participar das feiras de rua – Feira da Pompéia, Arraiá da Vila, e outras feiras alternativas. E uma vez, pensamos: “por que a gente não monta uma coisa nossa?”. Resolvemos então criar a Feira Preta.
Não éramos da área de eventos, mas tínhamos uma coisa muito clara, queríamos empreender algo que fosse voltado para a cultura negra. Queríamos fazer a Feira Preta aqui na Vila Madalena, onde acontece a Feira da Vila. Recordo que começamos a distribuir cartas para avisar sobre a Feira e os moradores não deixaram a gente fazer. Optamos pela Praça Benedito Calixto. O objetivo de fazer aqui na região de Pinheiros era justamente mostrar que o negro pode circular em qualquer lugar. Seria muito fácil fazer a feira nas regiões periféricas, onde a predominância é da população negra, mas é muito difícil trazê-la para o centro. No primeiro ano, o resultado foi muito bom, conseguimos cerca de 5 mil pessoas. No segundo, foram 7 mil participantes. No terceiro ano a Associação dos Amigos da Praça Benedito Calixto e os moradores fizeram um abaixo assinado para não fazermos mais a feira lá.
Por que?
Alegaram vários motivos, dizendo que já estavam cansados, porque já tinha a feirinha que acontece todos os sábados. Disseram que a Feira Preta trazia muito barulho, e que eles não gostavam do nosso “tipo de cultura”. Só que o nosso “tipo de cultura”, no primeiro ano, incluía artistas de destaque como Paula Lima e o Clube do Balanço… Tentamos reverter essa situação, mas não conseguimos. Saimos de lá e ficamos rodando com a Feira por vários espaços até chegar no Anhembi, onde permanecemos por quatro anos.

A Feira Preta deixou de ser feira de rua, perdeu essa estrutura mais artesanal e passou a ser feira de pavilhão. Nessa transição mudou muita coisa. Antes era em espaço público, sem cobrança de ingresso e com o apoio da prefeitura. Passou a ser em local privado, tivemos que cobrar ingresso, o que acaba limitando o público. O último evento ao ar livre, em 2005, contou com 14 mil pessoas, mas tivemos problemas com a chuva. No primeiro ano no Anhembi tivemos uma perda de público de 14 mil para 5 mil pessoas pagantes. Mas já nos recuperamos, no ano passado chegamos à 12 mil pessoas em um único dia.
Hoje a Feira recebe pessoas do Brasil inteiro, e conta com manifestações artísticas das mais diversas, desde a Umbigada do Tietê à apresentação de Hip Hop. Existe também uma parte de empreendedorismo, de expositores que comercializam produtos voltados para essa estética negra, mas que podem ser consumidos por qualquer pessoa. O grande desafio da Feira é deixar claro que este é um espaço para todas as etnias conviverem, e não só a negra.
Imagem: Rafael Munduruca
Adriana na entrada da Casa da Preta.
Quais são as suas principais conquistas?
A primeira delas é quebrar o estereótipo da mulher negra e pobre. Se você for observar os índices de desigualdade, a mulher negra está na base da pirâmide, com dificuldades de acesso à educação e ao mercado de trabalho. Eu, particularmente, consegui reverter esse quadro. Estudei, me formei e tive a chance de escolher e me dedicar à uma profissão. Quando comecei a fazer a Feira Preta, eu tinha parado o curso de graduação em Gestão de Eventos. Consegui terminar a faculdade e me especializei em arte e cultura.
A própria Feira Preta é uma vitória, se pensar que tudo surgiu quando eu estava desempregada, e que isso gerou uma série de conquistas, não só minhas, mas também de várias pessoas que participam do projeto.

A edição 2010 da Feira Preta acontece nos dias 18 e 19 de dezembro, no Centro de Exposições Imigrantes.


Com Raça e com Vontade!

Há 18 anos, quando se conheceram, a mineira Pinah Maria da Penha Ferreira Ayoub era passista da Beija-Flor e Elias Emile Ayoub, um comerciante libanês. O Carnaval levou Pinah até a loja que ele tinha, na zona sul de São Paulo. Foi comprar plumas para o amigo Joãosinho Trinta. “Quando o vi pensei comigo: ‘Opa, esse cara tá pra mim’”, brinca a exuberante negra, que não revela a idade por nada. A diferença cultural entre eles não foi obstáculo. A diferença racial sim. “Eu sempre quis abordar publicamente esse assunto”, diz Elias, 48 anos. O libanês conta que perdeu amigos quando foi morar com Pinah. “Eles eram negros e achavam que eu a estava enganando”, conta Elias. “Eles se afastaram e só retomamos quando casamos no civil em 1990 e levaram a sério nossa relação”, diz. Ambos fazem questão de dar exemplo para outros casais que sofrem o mesmo preconceito. Pinah e Elias também se casaram num centro espírita e hoje são pais de Cláudia, 8 anos. Há pouco tempo, o marido foi surpreendido com um desejo da mulher: “Antes de 2001 vamos nos casar na Igreja Nossa Senhora do Brasil”.

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